domingo, 24 de julho de 2011

Passagem para o céu

Dia desses saí de Macondo para visitar o Brasil. Inventei de abrir a boca e uma amiga pediu para eu comprar umas coisinhas (inhas?) para o casório dela.

Descobri que na verdade estava indo comprar minha passagem para o céu. E que antes, tinha de passar pelo inferno. O que era aquele aglomerado de gente na tal da Rua 25 de Março? Por que fui falar que estava viajando? Onde essas pessoas se escondem nos outros dias? Quem disse que dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo?

Enquanto tentava segurar a bolsa, andar sem bater em ninguém, olhar as vitrines e desviar tanto das bolinhas que vendedores jogavam para o alto, quanto das massagens nas costas, vi um comércio do futuro (ou do presente): uma loja de brincos hippies. Sim, de brincos hippies. Em série. Dezenas deles. Até vi um que comprei em uma viagem ao nordeste brasileiro...

Imaginei a linha de produção: uma salinha, com dezenas de rapazes e moças vestidos bem à vontade, cheirando a incenso (?!) e de trilha sonora I wanna love you, and treat you right... Que modernidade este nosso mundo, heim? E os hippies de rua (sim porque agora tem os hippies de fábrica...) comprando aos montes? “Quero 50 daquele brinco de pena com pedrinhas de Fortaleza e 75 aquele anel pré-moldado de araminho”.

E a entrevista para trabalhar na fábrica?

- Bom dia.
- Sóooo...
- O senhor parece novo, tem quantos anos?
- É que eu uso protetor solar, meu velho. Sou um hippie consciente. Mas já sou velhinho, tô com 25.
- Tem experiência?
- Claro, pô (cara de indignado, mostrando o portfólio no seu iPad). Sei fazer daqueles de conchinhas, arames, madeira, moeda, qualquer material. Já passei pelas praias do Rio, Natal, Fortaleza, Salvador e todos os festivais maneiros do Centro-Oeste e Sudeste, meu brother.
- Toma banho todo dia?
- Sou hippie mas sou limpinho, pô...
- Tá contratado.


Esse mundo tá mesmo do avesso...